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Como podemos navegar essa nova fase com segurança, autonomia e em sintonia com os ritmos do nosso corpo? Para nos guiar por este território, convidei uma especialista que admiro imensamente pelo seu trabalho com Ginecologia Natural e Ayurveda, a querida Sabrina Latansio.


Neste artigo, Sabrina nos oferece um mapa claro e empoderador sobre os métodos naturais, desvendando mitos e verdades para que possamos fazer escolhas mais conscientes e nos reconectarmos com nosso corpo nesse período de tanta transformação.


Por Sabrina Latansio -
O pós-parto é um território de renascimento.
Além da chegada de um bebê, temos o surgimento de uma mulher como mãe. O corpo ainda pulsa a memória da gestação, a mente rompe os caminhos antigos de pensar a si mesma e as relações, os hormônios dançam em outra frequência e a vida exige presença total.

No meio desse novo ciclo, uma pergunta inevitavelmente surge: Posso engravidar enquanto estou amamentando?

A resposta é: Sim, mas há nuances importantes que merecem ser conhecidas. A amamentação, por si só, pode funcionar como um método contraceptivo natural, desde que algumas condições sejam respeitadas. Esse método tem nome e respaldo científico: é o LAM - Método da Amenorreia Lactacional.

O que é o LAM e como ele funciona?

O LAM é um método natural de contracepção baseado na infertilidade temporária que ocorre durante a amamentação exclusiva. Quando bem aplicado, ele pode ser até 98% eficaz, o que o torna comparável a muitos métodos hormonais, mas sem interferência externa ao corpo da mulher.

Para que o LAM funcione com eficácia, é essencial seguir três critérios principais:

  1. Amamentação exclusiva (sem uso de fórmulas, água ou outros alimentos);

  2. Bebê com menos de 6 meses de vida;

  3. Ausência total de menstruação (amenorreia).

Se qualquer um desses três critérios mudar, o LAM deixa de ser considerado seguro como único método contraceptivo.

E após os 6 meses? Ou quando o ciclo volta?

Nesse momento, muitas mulheres buscam formas naturais de acompanhar sua fertilidade. É aí que entram os Métodos de Percepção da Fertilidade, como a observação da temperatura basal corporal e do muco cervical.

1) Temperatura Basal Corporal (TBC): Envolve o monitoramento diário da temperatura ao despertar. A temperatura do corpo oscila naturalmente com o ciclo hormonal: é mais baixa antes da ovulação e sobe levemente (0,2°C a 0,5°C) após a ovulação, devido à progesterona.

  • Cuidados: A TBC requer disciplina e pode ser afetada por noites mal dormidas, febre ou estresse. No pós-parto, o padrão pode ser instável, por isso, para maior segurança, deve ser combinada com outras observações.

2) Muco Cervical (Método Billings): Consiste na observação da consistência e aparência do muco vaginal, que muda ao longo do ciclo e indica os períodos fértil e infértil. O muco fértil é claro, elástico e abundante (semelhante à clara de ovo crua), enquanto o muco infértil é mais espesso, pegajoso ou ausente.

  • Cuidados: Exige um tempo de aprendizado e observação diária. No pós-parto, a mulher pode passar por longos períodos sem muco fértil, então o retorno gradual dele é um dos principais indicadores da volta da fertilidade.

A Visão do Ayurveda: Além da Contracepção, Reconexão:

Na Ayurveda, a contracepção durante a amamentação é vista sob uma lente integrativa, que respeita a sacralidade do puerpério. Nesse período, o foco principal da mulher deve estar na regeneração de sua vitalidade (Ojas), no vínculo com o bebê e na estabilidade que sustenta a produção de leite (stanya).

O Ayurveda reconhece a infertilidade natural temporária da amamentação, mas vai além, considerando a força do agni (fogo digestivo), a saúde da mente (manas) e o tempo ideal entre gestações para o rejuvenescimento completo dos tecidos (dhatus).

Contracepção Natural com Plantas: A tradição ayurvédica conhece algumas plantas com propriedades anticoncepcionais suaves, mas seu uso durante a amamentação deve ser sempre cauteloso e orientado por um profissional experiente. Dentre elas estão Shatavari, Guduchi e Babosa. Outras, como o Neem, são contraindicadas para uso interno durante a lactação.

Mais do que prevenção, é reconexão:

Escolher métodos naturais durante a amamentação não é apenas uma decisão contraceptiva, é também uma escolha de reconexão com o próprio corpo. É se permitir viver esse novo tempo com consciência, respeitando o ritmo interno que se transforma com a maternidade.

Informação é poder. E quando aliada à escuta do corpo, se transforma em liberdade.



Sobre a Autora Convidada


Sabrina Latancio é Bióloga com quase duas décadas de pesquisa científica em Botânica, Ecologia e Biodiversidade (UNESP, USP, UNICAMP, UQ/Austrália), que realizou uma transição de carreira para a Saúde Integrativa. Especializou-se em Hatha Yoga, Yogaterapia, Ayurveda (incluindo Clínica) e Doulagem. Foi docente na graduação em Naturologia (UAM) e atualmente leciona em diversas pós-graduações, além de seus atendimentos clínicos.

Como fundadora da Ecosofia Feminina, Sabrina trilha um caminho transdisciplinar que une saber ancestral, herbalismo intuitivo e consciência botânica, a serviço da soberania uterina e da reconexão profunda com o feminino. Seu trabalho, com olhares ecofeministas e ecológicos, integra as três ecologias, meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana, como eixo para restaurar a saúde do corpo, da mente e da comunidade.

Seu foco de ensino e pesquisa abrange:

  • Saúde da Mulher e Reprodutiva